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Entre Apagões e Excesso de Energia: o Papel das Baterias na Nova Fase do Setor Elétrico

Um paradoxo chamado energia

O Brasil vive uma contradição que poucos imaginam: enquanto cresce a preocupação com apagões e risco de desabastecimento, há momentos do dia em que a rede elétrica simplesmente não sabe o que fazer com tanta energia disponível. Placas solares gerando além da capacidade de consumo em horários de pico de irradiação, parques eólicos curtailados para não sobrecarregar linhas de transmissão, usinas hidrelétricas operando abaixo do potencial para equilibrar frequência.

O problema não é de quantidade. É de timing. E a solução que o mundo inteiro começa a adotar, e que o Brasil finalmente passou a incorporar de forma regulada, tem o nome de Sistema de Armazenamento de Energia por Baterias, ou simplesmente BESS (Battery Energy Storage Systems).

Hoje vamos explorar o que está mudando no setor elétrico brasileiro, quais marcos regulatórios e projetos concretos estão movimentando esse mercado e por que as baterias se tornaram peça central da transição energética no país.

O paradoxo energético brasileiro

A expansão acelerada das fontes renováveis, especialmente solar fotovoltaica e eólica, transformou o perfil da geração de energia no Brasil nos últimos anos. Essa transformação trouxe um desafio estrutural: essas fontes são intermitentes. O sol não brilha à noite. O vento não sopra em horário de pico de consumo. E quando ambos geram energia em excesso durante o dia, o sistema precisa descartar parte dessa produção por falta de capacidade de absorção.

Do outro lado, nos horários de maior demanda, como no final da tarde e início da noite, a geração solar cai abruptamente, enquanto o consumo ainda está alto. É exatamente nesse intervalo que o risco de apagão se materializa e que as usinas termelétricas, geralmente mais caras e mais poluentes, precisam ser acionadas para cobrir a diferença.

Como resumiu Alexandre Gomes, vice-presidente comercial da Matrix Energia, em entrevista à Exame: o Brasil vive um paradoxo onde ao mesmo tempo em que se fala em risco de apagão, também há energia excedente. A bateria, nesse contexto, surge como a peça que faltava no quebra-cabeça.

O que são os sistemas BESS e como funcionam

Os sistemas BESS funcionam como grandes “reservatórios” de eletricidade. Eles armazenam energia nos momentos em que há sobra na rede, geralmente durante a geração solar no meio do dia, e a devolvem ao sistema quando a demanda supera a oferta, nos horários de ponta.

A tecnologia dominante nos projetos em operação e em licitação no Brasil é a de baterias de íon-lítio, já consolidada globalmente e com custos em queda acelerada. Estudos indicam que os preços desses equipamentos caíram mais de 85% nos últimos 15 anos, o que está tornando o armazenamento competitivo em relação às alternativas convencionais, como as usinas termelétricas de pico.

Um sistema BESS pode entregar energia em frações de segundo, muito mais rápido do que qualquer usina térmica. Isso o torna especialmente valioso para serviços de estabilização de frequência, regulação de tensão e suporte em situações de emergência do sistema elétrico, funções que até pouco tempo eram exclusividade das usinas despacháveis.

Marcos regulatórios: o Brasil começa a agir

A ANEEL autoriza o primeiro SAE colocalizado

Em 2 de abril de 2026, a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) assinou a primeira autorização para instalação de um Sistema de Armazenamento de Energia (SAE) colocalizado em uma usina de geração no Brasil. O projeto está vinculado à Usina Fotovoltaica Sol de Brotas 7, no município baiano de Uibaí, e conta com capacidade nominal de 5.016 kWh e potência instalada total de 1.250 kW, com sistema de conversão de 2.300 kW.

A modalidade “colocalizada” significa que o sistema de armazenamento fica instalado junto à usina de geração, compartilhando as mesmas instalações de conexão à rede básica. O SAE pode consumir energia tanto da própria usina fotovoltaica quanto da rede, e a entregará ao sistema quando houver necessidade. As baterias utilizadas são de íon-lítio.

O Diretor-Geral da ANEEL, Sandoval Feitosa, celebrou o momento como um cumprimento de missão regulatória: as baterias trazem uma solução de médio e curto prazo para um problema que irá se acentuar com o tempo, em suas palavras. A expansão das renováveis exige um arcabouço regulatório que dê segurança para investidores e permita o desenvolvimento de uma cadeia de suprimento robusta.

Esse marco é resultado de um processo regulatório que vem sendo construído desde 2022, quando a ANEEL publicou uma nota técnica com propostas iniciais de regulamentação. Desde 2023, o tema passou por consultas públicas, projetos-piloto e iniciativas de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PDI). Em 2025, a Agência publicou orientações específicas para empreendedores interessados na instalação de sistemas colocalizados.

A Lei 15.269/25: o marco legal do armazenamento

Em novembro de 2025, o Brasil sancionou a Lei 15.269/25, que modernizou o marco regulatório do setor elétrico e trouxe regulamentação específica para a atividade de armazenamento de energia. Entre os pontos mais relevantes estão a atribuição à ANEEL para regular e fiscalizar sistemas de armazenamento com regras de remuneração e acesso ao Sistema Interligado Nacional (SIN) e a criação de mecanismos de fomento, incluindo a possibilidade de redução a zero do Imposto de Importação e inclusão no regime REIDI, com limite anual de renúncia fiscal de R$ 1 bilhão entre 2026 e 2030.

O primeiro leilão exclusivo de baterias

O governo federal anunciou para 2026 a realização do primeiro leilão dedicado exclusivamente a sistemas BESS no país, no âmbito do Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP). O objetivo é contratar cerca de 2 GW de potência proveniente de novos sistemas de armazenamento, com contratos de 10 anos e início de suprimento previsto para agosto de 2028.

Os números revelam o interesse do mercado: cerca de 18 GW de projetos estão prontos para cadastro, e a expectativa de investimentos apenas no primeiro certame é de R$ 10 bilhões, segundo estimativas da Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia (ABSAE). O leilão ainda tem como diferencial a exigência de conteúdo local, criando estímulo para o desenvolvimento de uma cadeia produtiva nacional.

Empresas como WEG, Tesla, CATL, BYD, Huawei e Sungrow já demonstraram interesse no mercado brasileiro. A WEG anunciou a construção de uma fábrica de BESS em Itajaí (SC), com capacidade de até 2 GWh por ano e operação prevista para o segundo semestre de 2027.

Baterias na distribuição: uma novidade histórica

Enquanto os projetos de grande escala avançam no âmbito da geração e transmissão, uma inovação igualmente relevante aconteceu na ponta da rede: pela primeira vez no Brasil, um sistema de armazenamento foi instalado diretamente na rede de distribuição.

O projeto, desenvolvido pela Matrix Energia em parceria com a Pacto Energia Distribuição Paraná, foi instalado em Coronel Vivida (PR) e conta com 10 baterias e capacidade de 20 MWh. Em operação desde fevereiro de 2026, o sistema armazena energia em momentos de excesso, como nos picos de geração solar, e a restitui à rede nos horários de maior consumo, funcionando como um “pulmão energético” local com capacidade de injetar até 10 MW de potência.

A diferença em relação a projetos anteriores está no ponto de inserção. Até então, os sistemas de armazenamento no Brasil estavam concentrados em usinas e sistemas de transmissão. Ao entrar na distribuição, a tecnologia passa a atuar exatamente onde geração e consumo se encontram, o que permite gerenciar fluxos de energia com maior precisão, reduzir perdas, melhorar a qualidade do fornecimento e ampliar a capacidade da rede sem necessidade imediata de novas obras.

A Matrix planeja dobrar sua capacidade instalada até o final de 2026, saindo de cerca de 120 MWh para aproximadamente 250 MWh. A empresa já atende 62 clientes em 13 estados com soluções de armazenamento.

O mercado brasileiro de baterias em números

O crescimento do setor é expressivo. Segundo estimativas da consultoria Clean Energy Latin America (CELA), o volume de baterias comercializadas no Brasil em 2025 ficou entre 1,3 e 2,5 GWh, com valor de mercado estimado acima de R$ 2,2 bilhões, mais de três vezes o montante de aproximadamente R$ 700 milhões registrado em 2024.

Projeções do setor indicam que os investimentos diretos em BESS no país podem superar R$ 22 bilhões até 2030, impulsionados pela expansão da geração renovável e pelas exigências de segurança energética. O déficit de potência firme no sistema elétrico é estimado em 55 GW até 2034, e estudos técnicos sugerem que o armazenamento em baterias pode cobrir entre 9 GW e 10 GW dessa demanda.

Desafios regulatórios que ainda precisam ser resolvidos

Apesar dos avanços, o caminho não é isento de obstáculos. Um dos principais entraves é a chamada “tarifa dupla” de uso do sistema de transmissão (TUST). Na regulação atual, os sistemas de baterias pagariam pelo uso da rede como consumidores ao armazenar energia e como geradores ao injetá-la de volta, o que encarece significativamente a viabilidade econômica dos projetos. Essa questão é considerada uma “jabuticaba” regulatória: não existe em nenhum outro país com mercado maduro de armazenamento.

A definição das regras de remuneração por serviços ancilares e a publicação da portaria definitiva do leilão de baterias também são pontos de atenção do setor. Parte dos investidores aguarda maior clareza antes de comprometer capital em projetos de larga escala.

Outro ponto de debate é a sequência entre o leilão de potência termelétrica e o leilão de baterias. Especialistas do setor alertam que contratar grandes volumes de termelétricas antes de consolidar o mercado de armazenamento pode reduzir o interesse e a urgência pelo leilão de BESS, postergar investimentos em soluções mais limpas e modernas e aumentar os custos sistêmicos no longo prazo.

Por que isso importa para o consumidor

A resposta pode parecer técnica, mas o impacto é concreto na conta de luz e no cotidiano de quem depende de energia elétrica.

Quando o sistema precisa acionar termelétricas de pico para cobrir os horários de maior demanda, o custo da energia sobe. Esse custo se reflete nas bandeiras tarifárias e nos reajustes anuais de tarifa. Sistemas de armazenamento que substituem ou reduzem o acionamento dessas usinas mais caras contribuem diretamente para a modicidade tarifária, ou seja, para manter as tarifas de energia em patamares mais acessíveis.

Além disso, baterias na distribuição melhoram a qualidade e a confiabilidade do fornecimento, reduzindo a frequência e a duração de interrupções, especialmente em regiões com alta penetração de geração solar distribuída ou com infraestrutura de rede mais fragilizada.

Para as empresas, o armazenamento abre a possibilidade de gerir melhor o consumo, reduzir a demanda contratada e participar de novos modelos de negócio no mercado livre de energia.

O que vem pela frente

O Brasil está em um ponto de inflexão no setor elétrico. A combinação de uma matriz elétrica cada vez mais renovável, crescimento acelerado da geração distribuída, um marco regulatório em construção e um mercado global de baterias com custos em queda cria as condições para uma transformação profunda.

Os próximos meses serão decisivos: a realização do primeiro leilão de BESS, a publicação das portarias regulatórias pendentes e os primeiros projetos de grande escala entrando em operação definirão o ritmo dessa transição.

O que já está claro é que as baterias deixaram de ser uma promessa futura. Estão chegando à rede de distribuição, às usinas fotovoltaicas, ao arcabouço regulatório e ao calendário de leilões. A pergunta não é mais “se”, mas “em que velocidade” o armazenamento de energia vai remodelar o setor elétrico brasileiro.

Conclusão

Entre apagões e excesso de energia, as baterias surgem não como solução mágica, mas como infraestrutura essencial de um sistema elétrico moderno. O Brasil deu passos concretos nessa direção em 2026, com a primeira autorização da ANEEL para sistema de armazenamento colocalizado, o pioneiro projeto de baterias na distribuição no Paraná e a preparação para o primeiro leilão exclusivo de BESS da história do país.

Agora, o desafio é consolidar o arcabouço regulatório, resolver os entraves que ainda travam o setor e garantir que essa janela de oportunidade não se feche. A transição energética não espera.

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Referências

https://www.gov.br/aneel/pt-br/assuntos/noticias/2026/sistema-de-armazenamento-de-energia-aneel-autoriza-primeira-unidade-armazenadora-vinculada-a-usina
https://exame.com/esg/entre-apagoes-e-excesso-de-energia-baterias-chegam-a-distribuicao-no-brasil-pela-primeira-vez
https://www.gov.br/mme/pt-br/assuntos/noticias/alexandre-silveira-lanca-consulta-publica-para-leilao-inedito-de-sistemas-de-armazenamento-em-baterias
https://canalsolar.com.br/leiloes-de-potencia-armazenamento
https://brasilbess.com/news/lrcap-2026-baterias-bess-podem-mudar-o-jogo-energ-tico
https://www.wtwco.com/pt-br/insights/2026/02/o-crescimento-do-mercado-de-armazenamento-de-energia-com-baterias-no-brasil
https://www.epowerbay.com/single-post/leilao-de-baterias-entra-na-agenda-do-mme
https://clickpetroleoegas.com.br/leilao-baterias-brasil-primeiro-historia-18-gw-r10-bilhoes-bess-davila
https://www.luxenergia.com.br/post/leilao-bess-brasil-2026

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